• hppadilha9

Políticas de transição energética e impacto no preço dos combustíveis e da inflação


Choque monetário, impressão de dinheiro (20/21), *fator inflacionário, oferta e gargalos na cadeia de suprimentos devido a pandemia global de Covid, lockdowns na China impactando a cadeia de suprimentos, e em 2022 houve um grande choque do petróleo, mais um efeito da oferta da economia e que teve como catalisador a guerra na Ucrânia.

A guerra na Ucrânia acabou evidenciando o estágio final do setor de petróleo e gás, tratado como sub-investimento nos últimos anos. O problema que enfrentamos agora, da oferta de petróleo, talvez venha sendo alimentado aos poucos desde meados de 2014/15 e os resultados chegaram mais evidentes junto com a guerra.


Com a Gazprom diminuindo o fornecimento de gás para Europa, disparando o preço do gás natural no continente (subiu em 150% o preço entre maio e junho). Mas não é somente a guerra, é um setor inteiro que não tem mais capacidade de atender a demanda, que ainda existe, da economia mundial, por combustíveis fósseis.


O FED tenta conter a inflação subindo os juros para tentar diminuir a demanda, fazendo uma recessão por um curto período. Mas talvez seja necessário aumentar o investimento para então aumentar a capacidade produtiva ou inovação tecnológica. O ESG e as políticas de transição energética estão desestimulando os investimentos em refinarias de petróleo ou no aumento de produção. É uma política que parece que foca primeiro na redução da produção, demonizando o setor de petróleo e gás, de combustíveis fósseis antes da demanda haver sido destruída, pois a economia mundial segue funcionando à base de combustíveis fósseis. Portanto se a demanda continua, destruir a oferta só vai elevar os preços sem diminuir o consumo ou a dependência dos combustíveis fósseis. É bastante complexa a transição energética e creio que estejamos sendo lançados no olho desse furacão que nos exige mais preparo, mais avanços efetivos no uso de energias renováveis, pois agora estamos colhendo os resultados da lentidão de uma transição tão necessária.

A inflação é de fato um problema econômico e social, mas às vezes o que é mais problemático são as respostas dos governos à inflação, ou seja, as medidas tomadas para conter a inflação acabam sendo mais prejudiciais que a própria inflação. O presidente Biden, por exemplo, está cobrando da indústria de petróleo dos USA que produza mais para combater a inflação, que ele cunhou num termo: "Putin's Price Hike", dando a entender que talvez seja o único motivo da alta dos preços dos combustíveis fósseis, sem considerar até mesmo a própria pandemia do Covid. A Casa Branca escreveu uma carta para as principais empresas de petróleo e gás dos USA cobrando providências para que a indústria aumente a produção no curto prazo e corte o preço de gasolina, óleo diesel, gás e todos os derivados, cortando suas próprias margens para tentar reduzir a inflação americana. Na carta da Casa Branca é mostrado um gráfico, com o preço do galão de gasolina, e a margem bruta do refino, um indicador importante. O crack spread* da gasolina, a medida que mensura a margem bruta das refinarias, calculando o preço de barril de petróleo com quanto a refinaria conseguiria vender o produto final, nunca esteve tão alto nos últimos dez anos. Soma-se a isso um constante desincentivo de investimentos, muitas vezes, com punições à indústria, sendo que agora, que o preço está alto e a empresa poderia fazer um caixa para investir, o governo quer cortar essa margem e/ou até punir a margem impondo impostos altos - como a Inglaterra tem feito- o que de fato acelerou a compra de carros elétricos no país. Londres não fede a combustível queimado e sente-se uma melhora impressionante na qualidade do ar e portanto, na qualidade de vida.


Enfim, voltando a carta do presidente Biden, ela diz o seguinte: “a falta de capacidade de refino e as margens de lucro resultante e sem precedentes das refinarias seguem frustrando o impacto das ações da administração do meu governo para endereçar a alta de preços de Vladmir Putin e estão elevando os custos para os consumidores. Eu aprecio a sua atenção imediata a essa questão e seus esforços para mitigar os desafios econômicos que as ações de Vladmir Putin têm criado para as famílias americanas.” Essa carta, é sem dúvida, uma articulação de marketing político, mas não deixou de ser respondida pelas petrolíferas, por exemplo, a Exxon Mobil, respondeu em carta aberta (pública): “a longo prazo o governo poderia promover investimento através de política clara e consistente que apoie o desenvolvimento de recursos nos USA assim como vendas de licença regulares e previsíveis, bem como, uma aprovação regulatória otimizada e apoio para infraestrutura, como os óleo dutos.” A ação número do governo Biden foi justamente revogar a licença de um óleo duto (Keystone) no seu primeiro dia de governo: Obras do Keystone XL são encerradas por decreto por Biden, poucas horas após a posse. Oleoduto levaria petróleo do Canadá até o Texas, cruzando os Estados Unidos de norte a sul.


Imagem do portal petronoticias.com.br

Então, resumindo, o governo quer que as petroleiras invistam no curto prazo e depois não invistam mais, somente invistam enquanto houver a crise inflacionária, o que parece ser uma imensa contradição. Porém a economia não funciona assim, nem os processos produtivos, que exigem longo prazo de planejamento e depois investimento, e isso ainda demora para maturar até chegar em um produto, lá no final da cadeia.


Em uma entrevista na CNN, a Secretária de Energia dos USA, Jennifer Granholm, foi questionada: “você quer realmente que as empresas em 5 ou 10 anos estejam perfurando mais para encontrar petróleo e as refinarias produzindo mais gasolina e óleo diesel em 5 ou 10 anos, é isso que você quer?” E a Secretária responde: “O que estamos dizendo é que hoje precisamos desse aumento de oferta, mas é claro que em 05 ou 10 anos e até mesmo no imediato momento nós estamos pisando no acelerador para mover para energia limpa ou renováveis para que os americanos não dependam de petroditadores como Putin e não sejam sujeitos a volatilidade de combustíveis fósseis. O que ultimamente queremos é que os USA dependa apenas da produção doméstica de energias limpas.” E o entrevistador diz: “se colocando no lugar das companhias, o que elas estão dizendo é, vocês estão pedindo para que a gente invista agora quando em 05 ou 10 anos essa demanda nem esteja aí e a administração do país talvez nem queira que essa demanda esteja aí.”


Agora que a inflação virou um problema político e de popularidade de todos os governantes do ocidente, será que faz sentido as petrolíferas investirem agora porque a inflação pede isso mas depois terem que investir apenas em economias renováveis?


Esse choque de petróleo que afeta pelo lado da oferta a economia e a inflação de preços é na avaliação do comentarista Fernando Ulrich, em excelente vídeo explicando tudo isso, na opinião dele, um erro de política monetária, de política fiscal e erro de política energética. Ulrich conclui que os países ainda nem admitiram que essas políticas são um fracasso e não têm como darem certo. Diz ele, que apenas analisando a situação das comodities globais e a situação energética, não seria absurdo concluir que os preços dos combustíveis possam permanecer num patamar mais elevado que foi no passado. E se houver uma recessão mais brusca, podem reduzir-se os preços, mas momentaneamente, a causa principal, que foi pelo lado da oferta, não foi resolvida. E ele pode estar certo, só se resolve investindo maciçamente e por anos, porque envolve pesquisa, teste, demanda etc., e quanto mais tempo demorarmos na decisão de investir em energias limpas mais tempo o mundo dependerá dos combustíveis fósseis.

Grande abraço.


Hamylton Pinheiro Padilha Jr.


* entendemos como inflação o aumento de preço, mas na verdade, inflação é uma consequência de um aumento de oferta monetária, mais dinheiro sendo jogado na economia. E quem controla a oferta monetária?

* crack spread refere-se à diferença geral de preços entre um barril de petróleo bruto e os produtos petrolíferos refinados a partir dele. É um tipo de margem bruta de processamento específico do setor. O “crack” a que se refere é um termo da indústria para separar o petróleo bruto em produtos componentes, incluindo gases como propano, combustível de aquecimento, gasolina, destilados leves, como combustível de aviação, destilados intermediários, como diesel e destilados pesados, como graxa.