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Aquecimento Global – Parte 3

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Parte 2

Continuando:


“Antes de 50 milhões de anos atrás, a Terra não tinha eras glaciais regulares, mas, quando ocorriam, elas tendiam a ser colossais (Stevens, The change in the Weather, p.10). Um resfriamento substancial ocorreu há cerca de 2,2 bilhões de anos, seguido de 1 bilhão de anos ou mais de calor. Depois houve outra era glacial ainda maior que a primeira – tão grande que alguns cientistas hoje se referem à época em que ocorreu como o Criogeniano, ou super era glacial (McGuire, A guide to the endo f the world, p. 69). A condição é mais popularmente conhecida como “Terra Bola de Neve”.


“Bola de Neve”, porém, mal exprime o rigor assassino das condições. Segundo a teoria, devido a queda na radiação solar de cerca de 6% e a redução na produção (ou retenção) de gases de estufa, a Terra perdeu a capacidade de reter seu calor. Ela tornou-se uma espécie de Antártida gigantesca. As temperaturas caíram até 45° C. Toda a superfície do planeta pode ter se congelado, com o gelo do oceano chegando a uma espessura de oitocentos metros em latitudes maiores e de dezenas de metros nos trópicos (Valley News – Whashington Post – “The Snowball Theory”, 19 de junho de 2000, p. C-1).


Há um problema grave em tudo isso: os dados geológicos indicam gelo por toda a parte, inclusive ao redor do equador, enquanto os dados biológicos indicam com a mesma firmeza que deve ter havido água exposta em algum ponto. Antes de mais nada, as cianobactérias sobreviveram à experiência, e elas realizam fotossíntese. Para tanto, precisavam de luz solar, mas quem vive nos países frios sabe que o gelo rapidamente se torna opaco e, após apenas alguns poucos metros, bloquearia toda a luz. Duas possibilidades foram sugeridas. Uma é que um pouco de água oceânica permaneceu exposta (talvez em virtude de algum tipo de aquecimento localizado em um ponto quente). A outra é que o gelo pode ter formado de maneira a permanecer translúcido – uma condição que ocorre às vezes na natureza.


Gelo translúcido

Se a Terra ficou toda congelada, resta a pergunta difícil de como foi que conseguiu se aquecer de novo. Um planeta gélido deveria refletir tanto calor que permaneceria congelado para sempre. Parece que o socorro pode ter vindo do nosso interior fundido. Mais uma vez, talvez tenhamos de agradecer à tectônica por permitir que estejamos aqui. A ideia é que fomos salvos por vulcões, que se elevaram acima da superfície soterrada e bombearam para fora imensas quantidades de calor e gases que derreteram as neves e restauraram a atmosfera. O interessante é que o fim desse episódio hipergelado é marcado pelo surto cambriano – a primavera da história da vida. Na verdade, o processo pode não ter sido tão tranquilo. À medida que se aquecia, a Terra provavelmente teve o clima mais violento jamais experimentado, com furacões poderosos o suficiente para erguer ondas à altura de arranha céus e chuvas indescritivelmente intensas (Transcrição do documentário “Snowball Earth” da série Horizon da BBC, transmitido originalmente em 22 de fevereiro de 2001, p.7).


Através dessas intempéries, os vermes, os moluscos e outras formas de vida das chaminés do fundo do oceano continuaram vivendo como se nada de anormal estivesse ocorrendo, mas o resto da vida na Terra deve ter chegado à beira da extinção. Tudo isso aconteceu numa época muito remota e pouco conhecida.


Comparadas com um surto criogeniano, as eras glaciais de épocas mais recentes parecem de escala bem pequena, mas claro que foram imensas pelos padrões de qualquer coisa encontrada na Terra atualmente. O lençol de gelo wisconsiano, que cobria grande parte da Europa e da América do Norte, tinha mais de três quilômetros de espessura em alguns lugares e avançava a uma velocidade aproximada de 120 metros por ano. Que espetáculo deve ter sido! Mesmo na extremidade dianteira, os lençóis de gelo podiam ter quase oitocentos metros de espessura. Imagine estar na base de uma muralha de gelo com essa altura. Atrás dessa base, sobre uma área de milhões de quilômetros quadrados, não existiria nada além de gelo, com apenas uns poucos picos das montanhas mais altas assomando. Continentes inteiros afundaram sob o peso de tanto gelo e mesmo agora, 12 mil anos após a remoção das geleiras, continuam subindo ao seu lugar. Os lençóis de gelo não só deslocaram os seixos e longas fileiras de morainas cascalhentas; eles despejaram massas de terras inteiras – Long Island, cabo Cod e Nantucket, entre outras – em seu lento avanço. Não espanta que geólogos antes de Agassiz tivessem dificuldade em perceber sua capacidade monumental de reformular paisagens.



Se os lençóis de gelo voltassem a avançar, não temos nada em nosso arsenal capaz de rechaçá-los. Em 1964, em Prince William Sound, no Alasca, um dos maiores campos glaciais da América do Norte foi atingido pelo terremoto mais forte já registrado no continente. Ele mediu 9,2 na escala Richter. Ao longo da falha geológica, a terra elevou-se até seis metros. O tremor foi tão violento que fez água espirrar para fora de poças no Texas. Qual o efeito desse fenômeno sem precedentes sobre as geleiras de Prince William Sound? Nenhum. Elas simplesmente o absorveram e continuaram avançando.


Terremoto no Alasca na sexta-feira Santa de 1964

Durante muito tempo, pensou-se que as eras glaciais começassem e terminassem gradualmente, no decorrer de centenas de milhares de anos, mas sabemos agora que não foi assim. Graças aos núcleos de gelo da Groenlândia, temos um registro detalhado do clima por mais de 100 mil anos, e o que se descobriu não é reconfortante. Os indícios são de que, na maior parte da história recente, a Terra esteve longe de ser o local estável e tranquilo que a civilização tem conhecido. Pelo contrário, o planeta oscilou violentamente entre períodos de calor e um frio brutal.



Quase no final da última grande glaciação, cerca de 12 mil anos atrás, a Terra começou a esquentar rápido, porém abruptamente mergulhou de volta no frio intenso por cerca de mil anos, em um evento conhecido na ciência como o Dryas Recente (Stevens, op. cit., p. 34). O nome vem da planta do Ártico dryas, uma das primeiras a recolonizar a terra após o recuo de um lençol de gelo. Houve também o período Dryas Antigo, menos rigoroso. Ao final desse esfriamento de mil anos, as temperaturas médias voltaram a subir quase 4° C em vinte anos, o que não parece muito, mas equivale a trocar o clima da Escandinávia pelo do Mediterrâneo em apenas duas décadas. Localmente, as mudanças foram ainda mais intensas. Os núcleos de gelo da Groenlândia mostram que as temperaturas ali mudaram até 8° C em dez anos, alterando drasticamente os padrões pluviométricos e as condições da vegetação. Isso já deve ter sido bastante perturbador num planeta pouco povoado. No presente, as consequências seriam inimagináveis.


O mais alarmante é que não temos a menor ideia de quais fenômenos naturais poderiam abalar tão rapidamente o termômetro da Terra. Como observou Elizabeth Kolbert, escrevendo no New Yorker. “Nenhuma força externa conhecida, nem mesmo alguma das que foram hipotetizadas, parece capaz de impelir a temperatura para cima e para baixo tão violentamente, e com tanta frequência, como esses núcleos mostraram terem ocorrido.” Parece haver, ela acrescenta, “algum ciclo de feedback vasto e terrível”, provavelmente envolvendo os oceanos e distúrbios dos padrões normais da circulação dos oceanos, no entanto tudo isso ainda está longe de ser compreendido.



Uma teoria é que o forte influxo de águas de degelo nos oceanos, no principio do Dryas Recente, reduziu a salinidade (e, assim, a densidade) dos oceanos do norte, fazendo a corrente do Golfo desviar-se para o sul, como um motorista tentando evitar uma colisão. Sem o calor da corrente do Golfo, as latitudes ao norte retornaram a condições gélidas. Mas isso não explica por que, mil anos depois, quando a Terra de novo se aqueceu, a corrente do Golfo não voltou ao percurso anterior. Pelo contrário, recebemos um período de tranquilidade incomum conhecido como Holoceno, a época em que vivemos agora.


Não há motivo para supor que este período de estabilidade climática deva durar muito mais tempo. Na verdade, alguns especialistas acreditam que estamos sob a ameaça de condições ainda piores do que as do passado. É natural supor que o aquecimento global agiria como um contrapeso útil à tendência da Terra de retornar a condições glaciais. Todavia, como observou Kolbert, diante de um clima instável e imprevisível, “a última coisa que você pensaria em fazer é submetê-lo a um experimento vasto e não supervisionado” (New Yorker, “Ice memory”, 7 de janeiro de 2002, p. 36). Chegou-se a sugerir com mais plausibilidade do que pareceria de início evidente, que uma era glacial poderia, na verdade, ser induzida pelo aumento das temperaturas. A ideia é que um aquecimento ligeiro aumentaria as taxas de evaporação e cobertura de nuvens, levando a acúmulos mais persistentes de neve nas latitudes maiores (Schultz, op. cit., p. 72). Com efeito, o aquecimento global poderia plausivelmente, ainda que se trate de um paradoxo, levar a um forte resfriamento localizado na América do Norte e no Norte da Europa.


O clima é um produto de tantas variáveis – aumento e diminuição dos níveis de dióxido de carbono, deslocamentos de continentes, atividades solar, as flutuações grandiosas dos ciclos de Milankovitch – que compreender os eventos do passado é tão difícil quanto prever aqueles do futuro. Muita coisa é simplesmente incompreensível. Tomemos a Antártida. Durante pelo menos 20 milhões de anos após se fixar sobre o pólo Sul, a Antártida permaneceu coberta de plantas e livre de gelo. Isso não deveria ser possível.


Não menos intrigantes são as áreas atingidas por alguns dinossauros tardios (Drury, Stepping stones, p. 268). O geólogo britânico Stephen Drury observa que florestas a dez graus de latitude do pólo Norte abrigaram animais de grande porte, entre eles o Tyrannosaurus rex. “Isso é estranho”, ele escreve, “pois uma latitude tão alta fica continuamente escura durante três meses do ano”. Ademais, existem sinais de que essas latitudes altas sofriam invernos rigorosos. Estudos de isótopos do oxigênio indicam que o clima em torno de Fairbanks, no Alasca, no final do período Cretáceo era mais ou menos idêntico ao atual. Portanto, o que um tiranossauro estava fazendo ali? Ou bem ele migrava sazonalmente por distâncias enormes, ou passava grande parte do ano em montes de neve no escuro. Na Austrália – que naquela época estava mais próxima do pólo -, recuar para climas mais quentes não era possível (Thomas H. Rich, Patricia Vickers-Rich e Roland Gangloff, “Polar dinosaurs”, manuscrito inédito). Como os dinossauros conseguiam sobreviver em tais condições é um mistério.



Um fato a ser levado em conta é que, se lençóis de gelo começassem a se formar de novo por quaisquer motivos, disporiam de muito mais água agora (Shultz, op. cit., p. 159). Os Grandes Lagos, a baía de Hudson, os incontáveis lagos do Canadá não existiam para alimentar a última era glacial. Foram criados por ela.


Por outro lado, a próxima fase de nossa história poderia testemunhar o derretimento de enormes quantidades de gelo, e não sua formação. Se todos os lençóis de gelo derretessem, os níveis oceânicos subiriam sessenta metros – a altura de um prédio de vinte andares – e todas as cidades costeiras do mundo seriam inundadas. Mais provável, ao menos a curto prazo, é o colapso do lençol de gelo da Antártida Oeste. Nos últimos cinquenta anos, as águas a sua volta aqueceram 2,5° C, e os colapsos têm aumentado substancialmente. Devido a geologia subjacente da área, um colapso em grande escala é totalmente possível. Nesse caso, os níveis oceânicos globais aumentariam – e bem rápido – entre 4,5 e seis metros em média (Ball, H₂O, p. 75).


O mais extraordinário de tudo é que não sabemos o que é mais provável: um futuro oferecendo uma eternidade de frio mortal ou períodos igualmente longos de calor sufocante. Só uma coisa é certa: vivemos no fio da navalha.


A longo prazo, eras glaciais não são tão assustadoras para o planeta. Elas pulverizam as rochas e produzem solos novos de grande riqueza, assim como cavam lagos de água doce que fornecem possibilidades nutritivas abundantes a centenas de espécies de seres. Elas agem como um incentivo à migração e mantêm o dinamismo do planeta. Como observou Tim Flannery: “Você só precisa fazer uma pergunta sobre um continente para saber o destino de sua população: “Você teve uma boa era glacial?” (Flannery, op. cit., p. 267). E com isso em mente, é hora de examinar uma espécie de macaco que realmente teve.”

Fim.


Do livro A short history of nearly everything, no Brasil: Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson, tradução Ivo Korytowski, Companhia das Letras, 2005.


Por Eng. Hamylton Pinheiro Padilha Junior

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