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Aquecimento Global – Parte 1

Atualizado: 22 de set.

Quando pesquisamos o assunto “aquecimento global” na internet - não importa em qual idioma – encontramos uma replicação de dados, informações e opiniões, como se todos falassem a mesma coisa de forma unânime. Como se lêssemos um mantra, o único permitido.


Dentro de um canal de streaming brasileiro de entretenimento e educação, a Brasil Paralelo, assisti uma entrevista com Alexandre Costa e Ricardo Felicio que me remeteu a uma leitura que fiz em 2008 de um livro de Bill Bryson (Uma Breve História de Quase Tudo, 2005) onde ele faz várias compilações de fatos científicos e históricos (ao estilo de Sapiens, de Yuval Harari, 2014) sobre esse importante tema ambiental.


Trago aqui um capítulo desse livro de Bryson supracitado, que é enriquecedor ao tema do aquecimento global. Tenho certeza de que após lerem o capítulo 27, que vou deixar aqui e na sequência dos próximos posts, vocês se interessarão imensamente em abocanhar toda a leitura geológica, física, química também histórica sobre o aquecimento global atual.


Essa leitura é do capítulo Tempo Gelado, e vou transcrever aqui na íntegra pois é extremamente interessante e bem diferente do comumente encontrado quando pesquisamos o assunto, além de ser explicada de forma não-imperativa e até bem-humorada:

“Em 1815, na ilha de Sumbawa, na Indonésia, uma montanha bonita e por longo tempo inativa chamada Tambora explodiu espetacularmente, matando aproximadamente 100 mil pessoas com a explosão em si e os tsunamis resultantes. Ninguém vivo hoje presenciou essa fúria. Presume-se que Tambora foi muito maior do que qualquer evento vivenciado por seres humanos na era civilizada. Foi a maior explosão vulcânica em 10 mil anos – 150 vezes mais forte que a do monte Saint Helens e equivalente a 60 mil bombas atômicas de Hiroshima.

As notícias demoravam para chegar naquele tempo. Em Londres, o Times publicou uma pequena matéria – na verdade, a carta de um comerciante – sete meses após o evento (Williams e Montaigne, Surviving galeras, p. 198). Mas àquela altura, os efeitos de Tambora já se faziam sentir. Duzentos e quarenta quilômetros cúbicos de cinza esfumaçada, poeira e grãos de pedra haviam se espalhado pela atmosfera, encobrindo os raios do Sol e esfriando a Terra. Os pores-do-sol tinham um colorido turvo anormal, efeito captado memoravelmente pelo artista J.M.W. Turner, que não poderia ter sido mais feliz, mas a maior parte do mundo sofreu sob um pálio opressivo e escuro. Foi esse obscurecimento mortal que inspirou os versos de Byron (que abrem o capítulo): Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho. O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas vaguejavam...


Localização da ilha de Sumbawa na Indonésia

A primavera não chegou, e o verão não esquentou: 1816 ficou conhecido como o ano sem verão. Em toda parte, as culturas agrícolas não germinavam. Na Irlanda, a fome e uma epidemia de febre tifoide associada mataram 65 mil pessoas. Na Nova Inglaterra, o ano tornou-se popularmente conhecido como Mil Oitocentos e Mortos de Frio. As geadas matinais continuaram até junho, e quase nenhuma semente plantada brotava. Com a falta de ração, o gado morria ou tinha que ser sacrificado prematuramente. Em todos os aspectos, foi um ano terrível – quase certamente o pior de todos para os agricultores nos tempos modernos. No entanto, globalmente a temperatura só caiu menos do que um grau centígrado (Officer e Page, Tales of the Earth, pp. 3-6). O termostato natural da Terra, como os cientistas descobriram, é um instrumento delicadíssimo.


O século XIX já era uma época gelada. Por duzentos anos, a Europa e a América do Norte em particular vinham experimentando uma Pequena Era Glacial, como se tornou conhecida, que permitiu todo tipo de eventos invernais – feiras sobre a superfície congelada do Tâmisa (as chamadas frost fairs), corridas de patins ao longo dos canais holandeses – praticamente impossíveis nos dias de hoje. Ou seja, foi um período em que o frio estava na cabeça das pessoas. Portanto, podemos talvez desculpar os geólogos do século XIX por demorarem a perceber que o mundo onde viviam era, na verdade, aprazível comparado com épocas anteriores, e que grande parte do terreno à volta deles havia sido moldada pela pressão de geleiras e por um frio que atrapalharia até uma frost fair.



Eles sabiam que havia algo de estranho no passado. A paisagem europeia estava repleta de anomalias inexplicáveis – os ossos de renas árticas no Sul quente da França, rochas enormes encalhadas em locais improváveis -, e as explicações propostas costumavam ser inventivas, mas pouco plausíveis. Um naturalista francês chamado De Luc, tentando explicar como penedos de granito haviam se assentado no alto dos flancos de calcário dos montes Jura, sugeriu que talvez tivessem sido atirados até lá pelo ar comprimido das cavernas, como rolhas em uma espingarda de ar comprimido (Hallam, Great geological controversies, p. 89). O termo para um penedo deslocado é errático, mas no século XIX a expressão parecia se aplicar mais amiúde às teorias do que às rochas.


O grande geólogo britânico Arthur Hallam afirmou que, se James Hutton, o pai da geologia, tivesse visitado a Suíça, teria percebido imediatamente o significado dos valões esculpidos, das estrias lustradas, das costas reveladoras onde rochas haviam sido despejadas e das outras pistas abundantes que apontavam para lençóis de gelo passageiros (Hallam, op. Cit., p.90). Infelizmente, Hutton não costumava viajar. Mas, mesmo dispondo apenas de relatos de segunda mão, ele rejeitou peremptoriamente a ideia de que penedos enormes tivessem sido levantados mil metros encostas acima por inundações – nem toda a água do mundo fará um penedo flutuar, ele observou – e tornou-se um dos primeiros a defender uma glaciação generalizada. Porém, suas ideias passaram despercebidas, e por mais de meio século a maioria dos naturalistas continuou insistindo em que os sulcos nas rochas podiam ser atribuídos à passagem de carroças ou mesmo às marcas de pregos de botas.


Estrias



No entanto, os camponeses locais, não contaminados pela ortodoxia científica, estavam bem mais informados. O naturalista Jean de Charpentier contou a história de como, em 1834, estava caminhando por uma alameda campestre com um lenhador suíço quando começaram a falar sobre as rochas ao longo do caminho. O lenhador contou, em tom bem natural, que os penedos vieram do Grimsel, uma zona de granito a certa distância dali. “Quando perguntei como, na opinião dele, aquelas pedras haviam chegado a tais locais, ele respondeu sem hesitar: a geleira do Grimsel transportou-as para os dois lados do vale, porque aquela geleira estendia-se, no passado, até a cidade de Berna” (Idem, ibidem.).

Charpentier adorou. Ele próprio havia chegado àquela ideia, mas, ao apresentá-la em encontros científicos, ela foi rejeitada. Um dos melhores amigos de Charpentier, outro naturalista suíço chamado Louis Agassiz, após certo ceticismo inicial, acabou adotando a teoria e, mais tarde, praticamente se apropriou dela.


Glaciar alpes suiços

Agassiz havia estudado com Cuvier em Paris e ocupava o cargo de professor de história natural da Faculdade de Neuchâtel, na Suiça. Outro amigo de Agassiz, o botânico Karl Schimper, foi realmente o primeiro a cunhar o termo era glacial (em alemão, Eiszeit), em 1837, e a propor que havia bons indícios de que o gelo, no passado, cobrira fortemente não apenas os Alpes suíços, como grande parte da Europa, da Ásia e da América do Norte. Era uma noção radical. Schimper emprestou suas anotações a Agassiz, e se arrependeu disso, já que Agassiz recebeu cada vez mais o crédito por uma teoria que Schimper considerava, legitimamente de sua autoria (Hallam, op. cit., pp.92-3). Charpentier também acabou brigando com o antigo amigo. Alexander von Humboldt, um outro amigo, talvez estivesse com Agassiz em mente quando observou que existem três estágios na descoberta científica: primeiro, as pessoas negam a sua verdade; depois negam que seja importante; finalmente, dão crédito à pessoa errada (Ferris, The whole shebang, p. 173).


Em todo caso, Agassiz dedicou-se de corpo e alma àquele campo. No afã de entender a dinâmica da glaciação, meteu-se por toda parte – nas profundezas perigosas e no alto dos picos mais escarpados dos Alpes, muitas vezes aparentemente sem perceber que ele e sua equipe eram as primeiras pessoas a subirem lá (McPhee, In suspect terrain, p. 182). Por quase toda parte, Agassiz enfrentou uma relutância inflexível à aceitação de suas teorias. Humboldt aconselhou-o a retornar a sua área de especialização, os peixes fósseis, e abandonar aquela obsessão louca com o gelo, mas Agassiz era um homem possuído por uma ideia.


A teoria de Agassiz encontrou ainda menos apoio na Grã-Bretanha, onde a maioria dos naturalistas nunca vira uma geleira e não tinha ideia da força esmagadora que o gelo exerce em grande volume. “Será possível que os arranhões e o lustre se devam unicamente ao gelo?”, perguntou Roderick Murchison em tom de zombaria em uma reunião, evidentemente imaginando as rochas recobertas por uma espécie de geada leve e vítrea. Até o dia de sua morte, ele expressou a mais franca incredulidade em relação àqueles geólogos, “loucos por gelo” que acreditavam que as geleiras pudessem explicar tanta coisa. William Hopkins, um professor de Cambrigde e membro proeminente da Geological Society, endossou seu ponto de vista, argumentando que a ideia de que o gelo pudesse transportar penedos apresentava “absurdos mecânicos tão óbvios” que a tornavam indigna da atenção da Sociedade (Hallam, op.cit., p.197).


Sem desanimar, Agassiz viajou incansavelmente para promover sua teoria. Em 1840, ele leu um artigo em uma reunião da Associação Britânica para o Progresso da Ciência, em Glasgow, e foi abertamente criticado pelo grande Charles Lyell. No ano seguinte, a Geological Society de Edimburgo aprovou uma resolução admitindo que poderia haver certo mérito geral em sua teoria, mas que certamente nada dela se aplicava à Escócia.

Lyell acabou mudando de opinião. Seu momento de revelação ocorreu quando ele percebeu que uma moraina, ou fila de rochas, perto da propriedade de sua família na Escócia, pela qual havia passado centenas de vezes, só poderia ser entendida caso se aceitasse que uma geleira as atirara ali. Mas tendo se convertido, Lyell depois perdeu a coragem e negou-se a apoiar publicamente a ideia da Era Glacial. Foi um período frustrante para Agassiz. Seu casamento estava se desfazendo, Schimper acaloradamente acusava-o de roubar suas ideias, Charpentier recusava-se a falar com ele e o maior geólogo vivo ofereceu apenas um apoio tépido e vacilante.


Em 1846, Agassiz viajou aos Estados Unidos para proferir uma série de palestras e ali enfim encontrou a receptividade tão desejada. Harvard ofereceu-lhe uma cátedra e construiu para ele um museu de primeira, o Museu de Zoologia Comparada. Sem dúvida, foi bom que tivesse se fixado na Nova Inglaterra, onde invernos longos estimulavam certa simpatia pela ideia de períodos intermináveis de frio. Além disso, seis anos após sua chegada, a primeira expedição científica à Groenlândia relatou que todo aquele semicontinente estava coberto por um lençol de gelo exatamente igual ao antigo imaginado na teoria de Agassiz. Enfim suas ideias começavam a ganhar adeptos. O grande defeito da teoria era a falta de uma causa para as eras glaciais. Mas a ajuda estava prestes a vir de um local inesperado.”


Continua.


Do livro A short history of nearly everything, no Brasil: Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson, tradução Ivo Korytowski, Companhia das Letras, 2005.

Por Eng. Hamylton Pinheiro Padilha Junior


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Disponível também em: https://hamyltonpadilha.wordpress.com/2022/09/12/aquecimento-global-parte-1/